quarta-feira, 16 de julho de 2014

Julian Gaio Argus Caeser # 3 – Um amor para a Vida.

O meu Caeser está doente. Ontem fomos com ele ao veterinário. A um mês de completar nove anos de vida, ficou com diarreia verde. Nunca tinha visto nada assim. O médico diz que pode ser de qualquer coisa que aspirou sem nós vermos, ou da mudança de ração. Olho para ele e lembro-me da primeira vez que nos encontrámos. Era o único macho de uma ninhada de onze cachorros Labrador Retriever pretos. Foi amor à primeira vista. Tinha dois meses e meio e parecia um besourinho. Assim que mo puseram no colo, nunca mais o larguei.

A entrada do “Ci” [nome que advém da abreviatura de Docinho] nas nossas vidas não foi pacífica. Após meses de negociações com os meus pais, de pesquisar sobre mil e trinta raças, optamos por esta. A fama de ser um cão com bom feitio, amigo da família, apto a viver em apartamento, com ar de “ursinho carinhoso”, popularizado pelo anúncio da Scotex, foram fatores decisivos na escolha. Eu teria preferido um Doberman ou um Dogo Argentino, mas ganhou a maioria. O meu pai não queria um cão em casa, mas eu insisti. Pesquisei linhas de sangue, criadores, genética, e optei por adquirir um exemplar descendente de “Campeões”. Tudo tretas. Paguei uma fortuna e fui enganada. Ainda hoje espero pelo LOP (Livro de Origens Português) e pelo Pedigree dele. Se calhar estou a ser injusta. Afinal, só se passaram nove anos. A senhora só está um bocadinho atrasada. Mas faria tudo de novo. O Caeser foi da longe a melhor coisa que já nos aconteceu na vida. Mudou para sempre a dinâmica familiar. Passou a ser o centro das atenções e testou todos os limites da nossa paciência. Quando arrancou o tambor da máquina de lavar roupa pela terceira vez [e a dita foi para o lixo por não ter arranjo], a minha mãe soltou um sorriso. Quando desfez a mobília das duas salas, e ambas tiveram o mesmo destino da máquina, o meu pai disse: “Cãozinho feio. Não se faz isso”. Quando me atirou ao chão e parti um pé [e passei o Agosto inteiro com uma bota de gesso, sem poder ir à praia], nunca, por um único momento, duvidei do nosso amor. Mas percebi que o “sistema educativo” que havíamos adotado não estava a resultar. O canídeo já tinha partido a casa toda e não sabia andar à trela, o que era extremamente perigoso, já que podia ser atropelado. Por isso, inscrevi-o num centro de formação canina e fomos ter aulas de “Obediência Básica”. Ao fim de três meses correram connosco. Os “colegas de turma” não se adaptaram bem ao Caeser [e ao facto de ele ter tentado, compulsivamente, travar um relacionamento de cariz intimo com todos eles]. O Treinador também não reagiu bem às sucessivas tentativas do “Ci” lhe violar o ombro. Por isso, explicou-me, delicadamente, que a minha “coisinha mais linda de todas as coisinhas” era um tarado psicopata em forma de cão, e que eu escusava de ir mais ao treino, porque a presença dele só destabilizava as aulas. Assim sendo, optámos por abandonar aquele bando de imbecis insensíveis.

Depois de completar um ano, deixou de partir a casa. E fizemos obras. As aduelas foram substituídas, o chão mudado para um antiderrapante e a mobília renovada. As portadas de madeiras [que o meu querido tinha destruído], não tiveram salvação e foram trocadas por umas de alumínio [que custaram uma pequena fortuna ao erário paternal]. Até hoje, nunca mais desfez nada. O Cão terror transformou-se num santo. Mas a malandrice está lá. Fez-me passar as maiores vergonhas da minha vida [desde violar a perna da tia velhota, a abalroar esplanadas inteiras, aconteceu-me de tudo], mas também me tem dado as maiores alegrias. É a única criatura no planeta inteiro que está bem-disposta e com ar feliz, 24 horas por dia, sete dias por semana. Para ele está sempre tudo bem, gosta de tudo e de todos, menos de crianças. Em cachorro um miúdo fez-lhe mal e nunca ultrapassou o trauma. Para o bem, e para o mal, o Caeser tem memória de elefante. Não se esquece de ninguém. Cultiva amores e ódios de estimação. Não suporta o cão do vizinho, e continua a ter medo do gato branco, chamado Neves, que odeia cães pretos e o atacou, ainda em cachorrinho.

Agora está doente, e tenho o coração partido. Há amores que não se explicam, que fazem parte de nós. E o que tenho pelo Caeser vai comigo para a tumba. Melhora depressa “Ci”. A praia está à nossa espera. És a “coisinha mais linda de todas as coisinhas”.  

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